Lydia the Tattooed Lady




  Das pessoas que deixam recados na minha página on-line, há um ser em específico que chama a minha atenção. Toda vez que esse missivista escreve algo, ou até mesmo remete um tolo sinal de “like it”, por mais boba que seja a postagem, repentinamente meu coração dispara em uma explosão de risos. Não que eu goste dele romanticamente, longe disso. Apesar de já ter sido apalermada por esse personagem, em algum lugar do passado, a questão é outra. Vê-lo em pleno movimento on-line, leva-me às gargalhadas, pois relembro dos elaboradíssimos métodos que usei para me aproximar dele, os quais ficaram eternamente marcados...

   Permita-me uma explicação. Em uma bela manhã, há séculos e milhares de horas, quando morava nos Estados Unidos, fui a um lugar – mais tarde apelidado por mim de “Porta do Paraíso” –  tatuar uma pequena borboleta lilás debaixo do umbigo. Eis que estou discutindo os detalhes da tatuagem com um profissional cujo nome era Steve, quando entrou na sala outro tatuador. E eu juro. Foi arrebatamento à primeira vista. Nunca tinha sentido nada parecido antes. Fiquei completamente em estado de êxtase. Era um homem, o mais magnífico jamais visto.  O impacto de tal encontro foi tamanho, que naquela mesma hora comecei a tremer. Se me perguntassem o porquê dessa reação não saberia responder. Apenas sei que fui fazer uma pequena tatuagem, despreocupada da vida, e nunca mais fui a mesma. Detalhe, ele nem era o artista que faria pousar uma butterfly forever em mim.

   O fato é que tudo naquele homem me era admirável à primeira vista. Muito alto, nem gordo nem magro - se bem que aqui no Brasil, com a cultura de corpo, ele seria considerado obeso mórbido. Era apenas um sujeito grandão e nada sarado. Sabe aqueles americanos com o corpo de lenhador do Alasca?  Assim era ele, uma grande fortaleza poética. Os olhos violeta, algo nada ordinário. Aliás, eu nunca tinha visto nada parecido. A não ser os da Elizabeth Taylor. O cabelo então –  diga-se de passagem – era  uma obra-prima à parte. Usava um topete de Elvis Presley. Logo de quem, do meu grande ídolo memphisniano! E o riso, ahhh! o riso! Bem, talvez a gargalhada mais bela por mim já ouvida. No dia em que nos conhecemos, enquanto conversávamos, ele ria igual a um menino de cinco anos...  No fundo, sua visão me lembrava a mistura de todos meus personagens prediletos de desenho animado americano. Resumo da ópera: meu príncipe. Ou, pelo menos, o soberano que minha cabeça, ainda ingênua e criativa da época, imaginava ser meu macho ideal.

   Entretanto, havia um sério problema. Quando senti o imprinting por esse artista, no início dos anos 90, estávamos na era pré-google. Naquele tempo, quando conhecíamos alguém por um acaso na rua, e ficávamos zonzos, era uma roleta russa para rever a tal criatura. Sabe aquela coisa de esbarrar com um desconhecido e já saber que a pessoa é a certa? Pois bem, antes da Internet, esse tipo de flerte resultava em uma situação difícil e tumultuada. Ou melhor, elaborada.  Não era como nos dias de hoje  que com uma simples troca de contatos on-line, as pessoas, se quiserem, a partir do minuto em que se conhecem, estarão ligadas para sempre. Quando a paquera era construída a cada encontro, e não se sabia nada da intimidade do outro, todo mundo tinha de suar muito a camisa, caso quisesse algum tipo de aproximação com um completo desconhecido.  E essa regra se aplicava tanto aos homens quanto às mulheres.

   Eu havia me apaixonado infantilmente por um rapaz, do qual as únicas informações eram apenas o primeiro nome e seu local de trabalho. Aqui também, há de se levar em consideração que tinha acabado de me mudar para uma cidade estrangeira, onde praticamente não conhecia ninguém, salvo minha roomate, Ale. E por falar nela... Coitada! Naquele mesmo dia, assim que voltei para casa, logo após conhecer o cavalheiro que englobava todos os meus desejos mais íntimos, com o coração a milhões de batimentos por segundo, comecei a bolar, com minha fiel escudeira, um plano para vê-lo novamente. Depois de muito matutar, cheguei à exótica conclusão de que teria de voltar ao estúdio again. Ou seja: sobrou para a melhor amiga.  Implorei a Alessandra que fosse se tatuar com a minha recente miragem. Sorte minha que ela se prontificou a participar  da minha trama mirabolante. Se era sua intenção se tatuar de fato, não sei, mas para a minha cabeça fantasiosa era a única saída. Afinal, eu não tinha nenhuma referência do rapaz, a não ser o estúdio de tatuagem. E best friend que se preze é assim: companheira em todo momento, parceira em qualquer situação!

  Na semana seguinte, como combinado, lá foi minha amiga se tatuar, e eu junto acompanhando, com cara de paisagem. Naquela sessão de tatuagem, sentada em um banco dentro do estúdio, conheci o mínimo sobre o meu cavalheiro; o bairro em que morava e o local de nascimento. Contudo, não foi um encontro, por assim dizer, produtivo. Até porque eu tremia tanto em sua presença, que mal conseguia jogar conversa fora, e muito menos falar em inglês. Era como se ele fosse o Vedder-Penn-DayLewis-Fassbender-FosterWallace-Gahan-Kerouac no mesmo macho. Isso posto, só me restou marcar outra sessão para, dessa vez, eu mesma fazer nova tattoo. Logicamente com um único objetivo: saber mais um pouco sobre ele.

  Ah! Doce e santa ingenuidade da juventude! Minha segunda tatuagem, também não me levou a lugar nenhum.  O fato é que eu o via, e as palavras não saíam. Cada vez que ele me perguntava algo, eu fitava aqueles olhos violeta, e desmaiava internamente. Conclusão: fui-me embora de lá mais uma vez marcada de tinta, e sem sequer saber a sua idade.

   Mas a Ale sabia das coisas. Sugeriu que deveríamos fazer tatuagens maiores.  Concluiu que, em virtude da minha eterna timidez, provavelmente quanto mais detalhado o ink, mais tempo eu teria para me soltar, e assim demonstrar que estava interessada no donzelo. Já que da última vez eu havia me tatuado, lá se foi minha amiga fazer um tribal nas costas, e eu, como sempre, a acompanhá-la. Acreditem, nem mesmo com quase metade do seu corpo marcado com desenhos indígenas, e eu sentada ali por horas, igual a um cão de guarda, o plano deu certo.

   Não satisfeitas, tivemos uma ideia ainda mais estapafúrdia.  Da próxima vez que fôssemos fazer uma tatuagem, eu tomaria antes um shot de whisky. Desse modo, estaria soltinha, soltinha quando meu príncipe entrasse na sala, e quem sabe assim conseguiria conversar melhor.

  Às onze da matina, algumas tatuagens depois e muitas garrafinhas de Jack Daniels entornadas dentro do carro, deu-se o resultado que já era de esperar: novamente nada aconteceu. A verdade é que o moço teria de ser mágico para adivinhar o que nós duas estávamos tramando, e imaginar que eu o queria forever and ever... (seja lá o que isso significava para uma menina de 20 anos que saíra do quarto para o mundo). Creio que ele nos enxergava apenas como duas garotas aficionadas por tatuagens. E não poderia ser diferente.  Em um período de seis meses, eu fiz cinco, e Ale, sete. De qualquer maneira, o mais impressionante dessa história toda é que nem atentamos para o fato de que as marcas eram para sempre. A tatuagem era apenas um detalhe necessário para encontrá-lo.

   O mais patético é que, com todas essas sessões e garrafas de uísque, só consegui descobrir o bairro onde morava o objeto do meu amor. E juro, calculei o caminho que meu príncipe percorria do trabalho à casa, e volta e meia, quando ele saía do estúdio,  posicionava-me em alguma das esquinas, ao longo do trajeto do seu carro, no intuito de ganhar apenas um tchau. Era batata: ele passava, buzinava e acenava. Eu tremia, morria, queria mais.

  Um dia, finalmente já desiludida das minhas investidas capengas, e depois de  sete tatuagens e Ale nove, eu e o objeto do meu maior e mais magnífico desejo nos encontramos por acaso em um café, pela primeiríssima vez. “E aí, blue butterfly? Nunca mais te vi no tattoo shop...”, cumprimentou-me com ar sedutor. Àquela altura, minha cota de tatuagens já havia se esgotado, e creio que ele ainda não tinha se dado conta. Talvez pensasse, até então, que eu queria ser a própria Kat Von D. “Não vou fazer mais nenhuma tatuagem... I am done...”, respondi, desolada e meio sem graça... No que ele então, me abraçando com toda a majestade que lhe cabia, olhou bem fundo nos meus olhos e retrucou: “Quem disse que a senhorita precisa se tatuar para ir me ver? Vem me visitar sempre, e quando quiser. Estou com saudades..

  Milhares de dólares gastos, lá em casa todo mundo desenhado igual a um álbum de figurinhas, eu quase me inscrevendo no AA, sem mencionar minha mãe, que já desesperada, no Brasil, gritava ao telefone, a cada nova marca em meu corpo: “Você está parecendo um marinheiro! E se se apaixonar por um coveiro? Vai ficar aí na Califórnia, lendo todos os obituários, indo a enterros, minha filha?! Onde já se viu se tatuar para paquerar...”. E de repente, ele me diz, sem afetação nenhuma e com toda a sedução do universo, que queria me ver e, o mais importante: que eu não precisava me tatuar para isso...!!!

***

  No que diz respeito ao coração, eram tempos divertidos - o mundo antes da Internet. Esse não saber nada do outro, essa paquera construída lentamente, cada encontro uma nova informação, o avanço à intimidade, era tudo uma farra.  Hoje em dia, não é mais assim. Perderam-se a antecipação, as borboletas na barriga.  Conheceu e gostou de alguém? Troque o nome dos perfis no Facebook de manhã, e de noite você já vai transar com o eleito. Nem que seja virtualmente. Acabou-se o mistério! Em dois segundos on-line, você descobre quase tudo sobre a vida da pessoa.  É inacreditável a facilidade de informação.

  Por isso, anos depois, vendo tudo o que se passa na vida desse ex-amado pela tela de um iPad, olho para as minhas tatuagens e morro de rir, lembrando-me da ingenuidade – liberdade – daqueles anos sem Internet. Recordo-me das milhares de vezes em que fiquei plantada na esquina só para vê-lo passar de carro. Naquele tempo, em plena era grunge, não era possível paquerar um homem que se acabou de conhecer, e saber tudo da sua vida com apenas um toque no mouse.

   Obviamente, meu caso, em que eu só enxergava a tatuagem como meio de estar com meu amor, era algo um tanto quanto exagerado. No mínimo. Entretanto, há de se levar em conta que, se em plenos 2014, vivo em um universo paralelo aos demais, em 1993 eu era a própria Alice correndo atrás do coelho branco. Mas isso é o que menos importa. O que vale nesse evento clássico de minha biografia, é meu sentimento de que nós todos, se de um lado ganhamos muito com o maravilhoso mundo da WEB, de outro, sem querer romantizar a era pré-google, nos privamos de coisas valiosíssimas. É fato. Depois que inventaram os sites de relacionamento e afins, ocorreu uma perda de qualidade evidente em todos os níveis  das relações interpessoais.

   São tempos diferentes, bem sei. Só a rapidez e os grandes eventos seduzem, a delicadeza de uma simples história assim não encanta ninguém. É difícil imaginar alguém plantado em uma esquina apenas para ver o outro passar, pensar em uma amizade em que a melhor amiga chega a ponto de se tatuar para que a biruta da best friend encontre seu amor, cogitar em um romance construído lentamente ao vivo e a cores, sem interferência de “fuxicamentos” on-line... Ao contrário, não há espaço para nada disso. Nos tempos atuais, as pessoas não têm paciência nem para esperar o carregamento de vídeos no YouTube, quem dirá deixar amadurecer uma paixão lentamente.

  A mercantilização on-line dos sentimentos tomou conta geral. E tudo que era diretamente vivenciado converteu-se em representação. Por isso, mesmo agora, no auge da flor da idade, e com sentimentos conflitantes em relação às minhas tatuagens, jamais as apagaria. Uma das coisas mais absurdas que já fiz – e afirmo com convicção – foi me tatuar a torto e a direito. Entretanto, dos arrependimentos irreversíveis que tenho, e não são poucos, as tatuagens não fazem parte do grupo. Se nada mais, elas representam, de certo modo, uma ordem de valores. Um símbolo real contra esse incrível mundo da ilusão virtual e dos costumes atuais.


 Trocava a letra por : "You better look out lil blue eyes, if you're wise'' E passava os dias cantando essa música.