O parasita


Bait-and-switch


"He is a punk, Juliana"

punk (pʌŋk)
n
1. (Sociology)
a. a youth movement of the late 1970s, characterized by anti-Establishment slogans and outrageous clothes and hairstyles
2. an inferior, rotten, or worthless person or thing



parasita se beneficia e o hospedeiro sofre as conseqüências


“É, mas naquele dia você falou que voltaria comigo...’’

“Há três semanas! O que disse antes não conta mais! Muita água rolou depois dali. Falei aquilo quando pensei que seu único defeito era ir para o forró e mentir que estava dormindo. Só que você mente em tempo integral. Tanto sobre coisas sérias, quanto a respeito de coisas bobas do cotidiano.”

“Assim você me ofende. Não sou mentiroso.”

“Cara, você mente mais do que político em campanha. Mentir é intrínseco a você, mais do que possa perceber. Mente porque tem baixa autoestima; mente, pois só sabe tirar onda assim. Então diz até que gosta de jazz, de ir ao teatro Municipal, quando na verdade só gosta de forró! ”

“Eu sou de boa família.”

“O que isso tem a ver com o fato de que você é um mentiroso patológico? A família do Ted Bundy também era ótima... O pior é que além de loroteiro, você é ótimo receptor e péssimo doador. O que vivi com você, no fundo, não foi nada menos do que uma relação de parasitismo. Você tirou, tirou, tirou e ainda quer tirar mais!”

“Fala sério, não é bem assim...’’

“Como não? Desde que você deu o ar de sua graça na minha vida, foi só prejuízo e dor de cabeça. Até botar fogo no meu apartamento, você botou.

 “Fiz coisas por você também.”

“Ah! fez?! Please enlighten me…”

“Eu te comi muito bem, Juliana.”

“...”

“Pôxa, vai dizer que não te como bem?"

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Pare o mundo que eu quero descer.

Em pleno milênio, logo quando pensei que já tinha escutado todas as estapafurdices possíveis ao longo da minha emocionante, porém muito estranha vida amorosa, tal pérola me é proferida.

E não vou lhe enganar, caro leitor, das poucas vezes na minha existência em que as palavras fugiram de mim, esse momento foi hors concoursTe comi muito bem é de uma deselegância tão atroz que minha educação nem me permite rebater. Mesmo porque não carrego a característica necessária no meu DNA para esse tipo de diálogo.

O mais absurdo de tudo é que até entender o real contexto do qual estava fazendo parte, e conhecer o sujeito de fato, eu até que estava gostando um pouco de estar ali. Que erro crasso de julgamento! Oh boy! O não saber nos estimula fazer coisas de que até o diabo duvida. Como já disse o caro Gilberto, "A ignorância é o pior desperdício de energia".

Agora, depois desse episódio catastrófico de minha biografia, as perguntas que não querem calar são: Que homens estão se consolidando? O que faz a sociedade produzir esses beócios?! E as mais importantes de todas: O que tem de errado comigo?! Como fui enganada por algo tão avesso àquilo por que lutei a vida toda? Como fui parar de frente a um comportamento tão enraizado na base da pirâmide de Maslow, enquanto me esforçava tanto para construir uma vida cheia de literatura e ciência? Malandro carioca precisa de miss laje, Juliana!!!

Sinceramente, creio que subestimei minha capacidade de cair em armadilhas e me meter em roubadas. Ao invés de namorar alguém disponível, analisado, resolvido e de bom caráter, em plenos 2014 me meti com um sujeito confuso, dissimulado, cheio de problemas e conflitos pendentes, e o mais impressionante, que mente sem ter o menor motivo, apenas por mentir.

Que eu tenha simpatia por homens estranhos, não se discute. Aliás, não é novidade para ninguém do meu círculo íntimo. No entanto, homem-falastrão-metido-a-“esperto” nunca me atraiu. Muito pelo contrário. Sempre tive aversão ao tipo galinha, não muito inteligente, que anda gingado e tem como diversão tomar cerveja no barzinho pé sujo da esquina.

Já namorei surfista. Já namorei modelo. Já namorei fetichista. Já namorei até inventor. Mas mulher de malandro, até então nunca tinha vivido tamanha desonra.

Mas o fato é que a responsabilidade da escolha errada é toda minha. O que deu em mim para, nessa altura do campeonato de minha nada normal vida, me envolver com um tipo assim, é um mistério que nem Sherlock Holmes decifra. Vixe! Nem mesmo a inteligência do FBI daria cabo da minha total falta de coerência afetiva.

Realmente, se a
 máxima ‘diga-me com quem dormes e te direi quem és’ for verdade, então, depois desse donzelo, só nascendo de novo. Ou como dizem os religiosos, só Jesus na minha causa. Freud aqui não vigora não.