#projetoverão#fitness#barriganegativa



Amo essa foto sem photoshop que a Lana Del Rey postou na página dela.
Linda. Há muita gente levando a vida com mais amplidão.
Que sejam esses os exemplos divulgados.



A moda agora é criar blogs ou contas no Instagram que relatem perda de peso. Abre-se o site do Globo.com e sempre tem alguma chamada do tipo: Fulana de tal perdeu 20 quilos com uma dieta sem glúten e criou o blog sougenial.com. Ou nos moldes de: Sicrana perdeu 8 quilos em dois dias com a dieta da tapioca, e agora tem um milhão de seguidores no Instagram.

Fazer um diário online dos quilos e dos gramas indo embora é o must da atualidade. É inacreditável. Quem diria que o desespero maior das desavisadas de plantão é conseguir uma barriga chapada, sem gorduras localizadas, a chamada “barriga negativa”, cheia de gominhos aparentes revelando a musculatura definida. (Só para constar que não tenho nada contra as pessoas se cuidarem, o que chama a minha atenção é a conspiração da banalidade em volta do abdômen perfeito). Então, nesse sentido, o que não aguento mais é ver pratos de vento grelhado e grama crua, fotografados com o eterno slogan “fique magra ou morra tentando”. As pessoas atualmente se exercitam e param de comer até provocar danos à própria saúde física e mental.

Aliás, como se faz dinheiro fácil com essas histórias do tipo “eu era assim e fiquei assim”... Mulheres viram celebridades midiáticas simplesmente porque perderam peso e se fotografaram para provar o grande feito. Tem gente que até fatura com isso. Se através da perda de peso − combinada com malhação − ainda se obtiver a tal da barriga negativa, então é sucesso viral e dinheiro no bolso, na certa.

Eu já deveria estar milionária se tivesse fotografado e documentado para o mundo ver as minhas trocentas voltas por cima. Se eu descobrisse a fórmula secreta do meu piloto automático, entonces... Vixe! Já estaria com o Bill Gates money.

É fato: tenho uma força de vontade, uma disciplina e um autocontrole como poucas pessoas que conheço. Já sofri de compulsão alimentar na adolescência e me curei sozinha − e o mais especial, sem nunca mais na vida ter tido recaídas, ou sofrido nada ligado a distúrbios alimentares. Desde então − da época em que me curei −, parei para sempre de tentar buscar a perfeição do corpo, e de me violar para atingir uma estética de supermodelo, comendo apenas vento com alfafa no almoço, e alface com vinagre no jantar. Muito ao contrário. Tenho uma relação muito saudável e positiva com a comida e com meu corpo. Atitudes estas conquistadas através de muito estudo, batalha pessoal e busca incansável pela minha saúde mental.

Também já superei lutos inimagináveis, sozinha, sem ajuda de remédios, família ou terapia (apesar de ser fã de Freud & co), assim como superei a perda de um amor e sobrevivi. Porque uma coisa é certa: quem perdeu um amor sabe, não tem nada pior no mundo do que isso. A não ser a perda da própria saúde ou a morte de pessoas queridas.

A compulsão alimentar começou na adolescência. Quando fiz 14 anos, vim a perder um amigo íntimo após o outro, das maneiras mais estapafúrdias. E como em casa não tive o aconselhamento certo para lidar com tantas perdas estranhas, de uma hora para outra, como forma de desviar a atenção dos meus questionamentos existenciais, inventei que não gostava do meu corpo e descontei minha dor na comida. Foi um horror, até negar o meu próprio peito, eu o fiz. Juntou a confusão natural da adolescência, com tudo de mais estranho que tive que enfrentar, para o caos interno se instalar. E daí veio aquele círculo vicioso: fazer ginástica 3 horas por dia, comer 4 cream crackers de manhã, e depois descontar toda a frustração em panelas e mais panelas de brigadeiro. Um inferno. Um dia pesava 48 quilos, no dia seguinte, 62. Círculo vicioso este que me acompanhou a adolescência inteira.

 Não teve nutricionista, endocrinologista, dietas milagrosas, nada que desse conta dessa maluquice toda. Birutice esta que, por sinal, faz parte do cotidiano de 8 entre 10 adolescentes brasileiras.

Como eu saí dessa? Bem, um belo dia, sofri um baque pior ainda. Perdi um dos seres humanos que mais adorava no universo sideral, da maneira mais cavernosa possível. Só que a morte dessa amiga querida, ao invés de me jogar num redemoinho maior de busca do corpo perfeito a qualquer custo, curou-me de todos os malefícios que vinha causando a mim mesma. Tomei um susto tão grande quando esse ser tão amado por mim se foi, que dali em diante taquei fora a balança, exclui da minha mente a busca pelo corpo de Stephanie Seymour como meio único de ser feliz e realizada, e fui tratar de ser feliz. De verdade. Sem neuras ou expectativas irreais de como um corpo ideal deveria ser.

Não foi da noite para o dia, é claro.  Quem sofre, ou já sofreu de qualquer tipo de distúrbio alimentar sabe que não é fácil se livrar dele. Tenho diversas amigas que nunca se libertaram dessa paranoia do corpo perfeito, e são eternas escravas da busca desenfreada pela perfeição. Em realidade, os distúrbios alimentares são bem difíceis de tratar. A recuperação pode levar anos, e em muitos casos nem haver recuperação. A Jane Fonda é uma que conta em seu livro ter sofrido durante vinte e cinco anos com bulimia e anorexia. Imagine o que é isso? São anos e mais anos de sofrimento interno.

Mas eu me libertei disso logo, para sempre − e como disse: sozinha.

 Primeiro passei a ler muito sobre compulsão alimentar, depois sobre alimentação saudável, depois Freud (sim, comecei a devorar Freud aos 19 anos de idade), depois sobre a prática de exercícios físicos, não como uma maneira de ficar sarada, e sim para conseguir seus efeitos benéficos à minha saúde física e mental.

O fato é que após a morte dessa amiga, eu literalmente mudei a forma de encarar a vida e, consequentemente, o papel do meu corpo nela.  E desde então nunca mais me preocupei com a balança como meta de felicidade; para falar a verdade, raramente me peso. A não ser quando vou ao médico, e daí não tem como evitar. Por falar nisso, meu ginecologista, disse outro dia: “Parabéns, a senhorita tem o mesmo peso há 10 anos. Isso que é um ser humano equilibrado”. No que respondi: ”Tenho o mesmo peso há 23 anos!”.

Parei de fumar também assim: “cold turkey”, como dizem os americanos. Sem ajuda de antidepressivos, sem ter engordado um grama, sem substituir um vício pelo outro. Um dia acordei e falei: “Chega!”. Foi fácil? Não. Fiquei um ano chorando. Aliás, eu era daquele tipo de pessoa que achava que iria morrer fumando, ou morrer por causa do cigarro. A nicotina é dose. Ela causa dependência comportamental, química e psicológica. Na época em que parei, eu tinha o namorado não fumante mais gente fina do mundo. Ele sempre me disse “Juliana, você tem uma força de vontade descomunal, tenho certeza que se resolver parar de fumar, consegue”. E foi o que fiz. Foi um ano de suplício. Quantas vezes quis acender um cigarro. Mas não o fiz. Como sempre, usei o tal do ‘mind over matter”. Sabia que um dia aquela vontade iria passar. E demorou. Chorei, chorei e chorei. Mas passou. Nunca mais tive vontade de botar um cigarro na boca. Hoje em dia, odeio cigarro e parece que nunca fui amiga do tal Marlboro Lights. Tenho horror a tudo relacionado a esse hábito nojento e jamais vou fumar de novo. Não sinto falta nenhuma. No fundo, até me envergonho de assumir que já fui fumante.

A perda de um amor? Bem, minhas gatas foram essenciais. Mas essa é uma superação que devo em maior parte ao meu piloto automático. A verdade é que meu corpo entrou em falência completa quando isso aconteceu. Que suplício! Uma provação, literalmente. O luto por um amor desperdiçado, além de ser um período de muita dor, é um tempo complicado de reconstrução da nossa autoimagem.

Doeu. Como doeu. E olhem que o meu limiar de resistência à dor é muito alto. Entretanto, foi um cenário sinistro aqueles tempos. Se dependesse da minha vontade de seguir em frente, eu não estaria aqui. Mas meu piloto automático entrou em ação. Ele sabia que eu não estava bem, e precisaria de toda a sua ajuda para sair daquele lamaçal. Foi meu piloto quem me levou para a faculdade. Foi ele quem descobriu o boxe. Que me fez procurar uma psicanalista. Que me manteve em pé por dois anos e pouco na neblina. Olhando para trás, vejo que, pós-separação, estive fora de mim por um bom tempo. Mas meu querido amigo, fez tudo no meu lugar. Tanto que, no começo do ano passado, quando defendi minha tese, e os meus professores anunciaram: “Você passou com louvor”, meus olhos se encheram de lágrimas. O fato é que não sei como fiz os primeiros anos da faculdade de jornalismo. Não faço a mínima ideia de como terminei o curso com o CR tão alto. Não sei de nada. Foi o meu piloto automático magnífico que fez tudo por mim. No último ano de faculdade eu já estava completamente livre desse luto, é bem verdade. Mas mesmo assim, a palavra louvor, naquele contexto, teve um peso enorme de vitória. Triunfo até. E tem momentos na vida que devemos comemorar.

Não sei a receita para ter um piloto automático tão legal e eficiente quanto o meu. De qualquer maneira, aconselho todo mundo que está sofrendo por amor a fazer uma faculdade. Buscar conhecimento. Aprender um assunto novo a fundo, não importa a idade em que se encontre. A sabedoria é a única coisa que ninguém pode nos furtar, podem até nos matar, mas nunca vão roubar o nosso saber. Qualquer conhecimento novo é um patrimônio verdadeiro. É algo que estará sempre à nossa disposição, em qualquer lugar, nos ajudando a sobreviver.

Isso dito, posso dar conselhos, contudo jamais pregaria nada. Mesmo porque o que funcionou para mim pode não funcionar para você. Tem gente que só consegue parar de fumar com antidepressivo. Tem gente que só sabe comer, se viver na dieta. Tem gente que não consegue nunca se superar em nada. Portanto, quem sou eu para ditar aos outros as minhas armas de superação pessoal.

Muitos de nós temos histórias e mais histórias de recuperação, de estoicismo. Alguns tiveram que superar coisas sérias, dores inimagináveis. Outros, situações nem tão sérias assim. Só que a vida é isso; perda e superação. Batalha. Sem fim, sempre. Ainda assim, não consigo entender essas pessoas que são cultuadas como modelos a serem seguidos, e influenciam no agenciamento de identidades de milhares de mulheres, apenas por criarem dietas hashtags. É muita gente que se une na crença do corpo perfeito.

Tem como ser saudável, sociável e feliz assim? Se sim, que cada um cultue sua barriga como queira. Eu, euzinha, sou contra idolatria, seja ela qual for. E também não gosto de quem só olha pro próprio umbigo. Essa coisa de limitar a vida a um parâmetro me assusta um pouco. Tanto se prega pela liberdade, aí o fulano vira escravo da barriga... Só pode ser tantã.

Contudo, não sou alguém que pode dar dicas sobre uma vida feliz e saudável, por isso deixo livre a barriga alheia negativa, positiva, neutra. Mas se posso expressar uma opinião, penso que é louco quem move a vida em função de uma barriga chapada. Tanta atenção dada ao desenvolvimento da barriga negativa, enquanto a capacidade de exercer o pensamento independente é nula. Considero tudo um absurdo. Silhuetas e mais silhuetas que nada mais são do que papéis de embrulho, cuja única função é apresentar um abdômen tanquinho, pronto para ser fotografado, e ditar um modelo de vida que, na minha concepção, não vale a pena.



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